domingo, 31 de maio de 2015

É melhor você estar morto.

O barulho da música era alto. Algo de rock clássico que fazia muito tempo que não escutava. Sentado, ele realmente não se importou. Não estava ali pela música, nem pela merda de uísque que serviam ali; sequer pelas strippers que se escorregavam e se esfregavam num ferro por um pouco de dinheiro.

Nada daquilo o interessava. Ligeiramente curvado sobre o bar, o homem se apoiava sobre os próprios cotovelos, mexendo a substância alcoólica no copo, antes de virá-la goela abaixo. Era uma figura magra. Nos dedos das mãos e no pescoço, tatuagens apareciam, continuação das que o sobretudo escondia. A pele era clara demais, doentia demais, as marcas de cortes e os curativos (aqui e ali) indicavam violência. As maçãs do rosto eram profundas, apesar da barba clara e rala tentar disfarçá-las. Os olhos azuis, eram indiferentes. Havia algo de perturbador ali. Seus dedos tamborilavam no copo.

- Hey, punk. - o barman chamou a atenção em tom rude. Era um homem grande, de cabelos curtos e grisalhos, seu rosto trazia profundas marcas, que só uma vida degenerada podia dar a alguém. - Vai ficar aí a noite toda ou o quê? Veio para criar problemas de novo? O chefe não gostou muito da última vez que você apareceu...

- Seu chefe escolheu a pessoa errada para testar produto novo. - o loiro respondeu, erguendo apenas ligeiramente o olhar. - Preciso de algo mais forte do que esse uísque. - empurrou o copo vazio no balcão do bar.

- Ah. - a expressão do outro foi de leve surpresa, antes de se tornar suspeita. O barman olhou para os lados discretamente antes de se aproximar e sussurrar. - Olha, não quero problema pro meu lado. Tem grana?

- O que você acha? - o loiro perguntou, impaciente.

- Ok. Vá lá pra trás.

Não havia por que esperar. Ele se levantou e seguiu para as portas dos fundos. Passou por uma quantidade considerável de homens que urravam e batiam palmas para uma loira seminua que estava no auge da sua performance. Não deu atenção. Por trás do pub, havia um córrego passando. O cheiro era de mijo e sabe-se lá o que mais. O homem acendeu um cigarro e olhou ao redor. Alguns metros dali, uma prostituta e um homem qualquer trocavam favores. Uma cena corriqueira por aquelas bandas, e por aquela hora da noite.

Encostou a cabeça na parede e suspirou aquele ar imundo e infeccioso. Só abriu os olhos quando sentiu alguém tocar em seu ombro. Era o barman.

- Agora, aqui. Me dá a grana e desaparece. - o grisalho empurrou o saco com pó branco em sua mão, e estendeu a outra para pegar o dinheiro.

Foi o que o loiro fez, entregou-lhe o dinheiro, e ficou com o saco em troca. Abriu-o o suficiente para espalhar a pó branco nas costas da sua mão. Curvou-se para cheirá-lo. E depois... depois... depois, houve um espasmo e ele se sentiu... invencível. . Era exatamente daquilo que precisava, ser invencível. Mal escutou, mas riu. E a indiferença se tornou febre. Ele correu dali, pulou em sua moto e voou.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Fated, faithful, fatal.(ou Sobre um cretino VI)

As correntes haviam sido quebradas. Os pesadelos haviam acabado. O medo... o medo havia desaparecido: ele estava livre. Para ele, liberdade havia adquirido um novo sentido. Sua jovem cabeça (o que alguém sabia da vida aos 17 anos?), jamais entendera o que aquela deliciosa palavra significava. Se soubesse, ele não teria arriscado perdê-la.
O homem respirou o ar e tentou se lembrar de quem era. A prisão não o havia feito realmente diferente, apenas mais cauteloso, algo que, convenhamos, ele nunca fora. Algumas contas precisavam ser acertadas.

Mas primeiro, um cigarro e uma puta, por favor.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A chuva, o silêncio e um mundo de "se"

Era uma noite fria. O único ruído que podia ser escutado era o de uma chuva fina, quase silenciosa. Com um leve tremular, a brisa afastou ligeiramente a cortina delicada da janela, entrando no cômodo e enchendo de cheiro de terra molhada as narinas da mulher que estava ali, a observar pela fresta os campos que se estendiam além do vidro cheio de gotas de água. Ela respirou aquele ar como quem precisa de droga para se anestesiar. Do medo, das dúvidas, da angústia. E se... e se... e se... cada frase em sua cabeça naquele momento começava com aquela paralisante construção.
- Mãe? – a voz soou suave atrás dela.
Ela se virou e sorriu para o pequeno menino, por volta dos 8 anos de idade, de cabelos castanhos curtos e arrepiados.
- Não consigo dormir. – ele continuou, massageando os olhos.
Era hora de botar seus medos de lado.
A mulher se afastou da janela, pegou a criança nos braços e abraçou-a. Respirou o cheiro do filho como quem precisa de droga para se acalmar. Ninguém o tiraria dela, tiraria?